Existe um estilo “afirmativo” e outro “propositivo”. Mas será que é preciso escolher um OU outro?

Os nossos debates adoram as alternativas do tipo “8 ou 80”: ou é preto ou é branco; ou é esquerda ou é direita; ou é certo ou é errado; ou é admirável ou é abominável. Muitas vezes é difícil situar-se entre os dois extremos. E esta situação que parece desenhar-se, pelo menos até certo ponto, também entre os católicos de hoje em dia.

Por um lado, há uma corrente que se apresenta como a defensora da “identidade”. Ela não teme mostrar a sua singularidade, o seu diferencial em relação à sociedade cada vez mais secularizada. A sua indignação diante do assim chamado “casamento para todos”, imposto por certas elites apesar dos massivos protestos populares, deu a esta corrente a oportunidade de perceber melhor a própria força: ela se distingue por não ceder aos que julga persistirem em seus erros, mesmo que o número dos errados continue aumentando. Para esta corrente, a questão é não se deixar contaminar, é permanecer inflexível e orar para que o Espírito Santo toque os corações das ovelhas desgarradas.

Por outro lado, há uma corrente que se apresenta como “mais aberta”, mais “atenta às tentações e provações” de hoje, às inquietações e convicções dos nossos contemporâneos. Esta corrente considera que os anátemas e a marginalização não são meios eficazes de evangelização; que é preciso, como fizeram todos os grandes missionários ao longo de vinte séculos, ouvir e compreender aqueles a quem se foi enviado: é preciso aprender a sua língua, entender a sua visão de mundo, a fim de cristianizar a sua cultura em vez lhe impor um modelo idealizado (o do cristianismo medieval ou pós-tridentino, por exemplo). Esta corrente se considera não frouxa, mas fiel à essência da tradição, que ensina que a firmeza não exclui a bondade, a paciência e a flexibilidade.

Daí o dilema: ser afirmativos OU propositivos?

Esta polarização não é uma simples mutação do velho antagonismo entre progressistas e conservadores. O catolicismo que pode ser chamado de “afirmativo” não é necessariamente “retrógrado”: ele procura mais resistir do que (re)tomar o poder. Por sua vez, o catolicismo que pode ser chamado de “propositivo”, e que provavelmente é majoritário entre os que hoje se dizem crentes, não se ocupa necessariamente em fazer do último concílio um “pomo de discórdia”.

De ambos os lados, além do mais, há leigos ativos e bastante visíveis: a era do clericalismo já passou em ambas as correntes – e, por isso mesmo, o velho anticlericalismo precisa hoje tirar a máscara e admitir-se mais especificamente como “cristofobia”.

A divergência entre os dois estilos se estende ainda aos métodos de apostolado. De um lado, apresenta-se o catolicismo em sua totalidade objetiva e indivisível, um catolicismo de “pegar ou largar”; do outro, dá-se um testemunho de experiências mais ou menos subjetivas e procura-se a convergência entre as “ovelhas reencontradas”. De um lado, qualquer resposta que não seja um “sim” incondicional equivale a um “não”; do outro, prevalece um convite a “caminhar juntos”. A alternativa entre “8 ou 80” se revela também na “pastoral”, no âmbito dos pedidos de batismo, casamento e funeral, além, é claro, da comunhão para os divorciados em segunda união: a questão de saber se a fé daqueles que se apresentam é genuína ou pelo menos suficiente nem sempre é fácil.

Acontece que as duas atitudes, tanto a “rigorista” quanto a “complacente”, são evangélicas. “Quem não é por mim é contra mim”, disse Jesus em Mateus 12, 30: este poderia muito bem ser o lema do catolicismo “afirmativo”. No entanto, o catolicismo “propositivo” se apoia em Marcos 9, 40, onde o Cristo declara: “Quem não é contra nós é por nós”. E o terceiro sinótico une tranquilamente essas duas propostas aparentemente contraditórias: Lucas 11, 23 é idêntico a Mateus 12, 30, e Lucas 9, 50 reproduz Marcos 9, 40, apenas substituindo “vós” por “nós”. Não há necessidade, assim, de divisões, de dar razão a uns e negá-la aos outros. O próprio Jesus foi “afirmativo” E “propositivo”, “inclusivo” E “exclusivo”.

A linha divisória, na verdade, não passa entre dois campos, mas por dentro de cada um, dependendo das circunstâncias, dos interlocutores e das situações pessoais, que nunca são tão fixas quanto gostaríamos (ou quanto tememos). É um paradoxo eloquentemente ilustrado pela Carta a Diogneto, um escrito apologético anônimo do século II ou III: o cristão está no mundo, mas não é do mundo; ele é solidário para com o próximo, mas, ao mesmo tempo, se mantém resolutamente à parte da mundanidade; mesmo crítico da mundanidade, ele não se encerra numa bolha de alegada santidade hermética, e sim convive com os não cristãos dando testemunho mais pela vida do que pelo discurso. É uma posição de equilíbrio difícil, mas estimulante; uma posição que não é sustentável sem três ajudas fundamentais: a dos próprios irmãos (todos eles, inclusive os “desgarrados”); a da Igreja, guardiã da unidade; e, acima de tudo, a da terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, cuja presença ativa nos liberta da sedução dos dilemas reducionistas.

Para ler a Carta a Diogneto: Maior joia da literatura cristã primitiva nos conta como viviam os primeiros cristãos

Fonte: https://pt.aleteia.org/2016/06/13/os-dois-estilos-catolicos-do-nosso-tempo/

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