INTRODUÇÃO: UM OLHAR A REALIDADE

Olhando a realidade em que vivemos hoje, percebemos que a iniciação na vida sócio-cultural já não significa uma adesão ao cristianismo. Durante o período que chamamos de cristandade, que de certa forma ainda está presente hoje em muitas comunidades (mentalidade), estas iniciações ocorriam simultaneamente[2].

Várias razões históricas e de compreensão teológica fizeram com que os dois processos se interpenetrassem. O que era fruto de um determinado momento da história passou, na prática, a ser pastoralmente concebido como essencial na transmissão da fé cristã.

Este processo simbiótico entre aqueles dois processos de iniciação – o sócio-culural e o cristão – revela-se através de atitudes que parece considerar que a sociedade é marcada por valores cristãos e, por consequência, uma vez apreendidas as orientações sócio-culturais, os valores cristãos também seriam, de alguma forma, assimilados… (ateísmo prático)[3].

Ao criar o homem à sua imagem e semelhança e ao dar-lhe a mulher por companheira, Deus quis constituir a família como célula primeira e vital da sociedade. Porém, muitas famílias estão a deteriorar-se progressivamente, ameaçadas pela crise de valores que marca os nossos dias. A família já não é uma “escola de santidade” ou um “viveiro de vocações”, mas um lugar onde vivem caricaturas humanas sem espaço para a vivência dos valores evangélicos.

Muito se ouve falar sobre evangelização das e nas famílias, mas esta continua a ser um grande desafio. Não sabemos como envolver as famílias, sobretudo, no processo de catequização dos filhos. É sabido que os pais devem ser os primeiros catequistas de seus filhos. Entretanto, a realidade é bem diferente. Muitas crianças chegam à catequese e não sabem sequer fazer o sinal da cruz, rezar… Toda a responsabilidade passa para a catequista, e não deve ser assim.

A iniciação cristã tem que começar em casa. A Sagrada Escritura mostra-nos o exemplo de Timóteo, o qual foi educado na fé pela sua avó e pela sua mãe: “Conservo a lembrança daquela tua fé tão sincera, que foi primeiro a de tua avó Lóide e de tua mãe Eunice e que, não tenho a menor dúvida, habita em ti também” (2Tim 1,5). Infelizmente isto é raro hoje em dia. Mas graças a Deus ainda existem famílias que conservam vivos os valores cristãos.

Entretanto, o que se vê, geralmente, são pais que simplesmente mandam ou deixam os seus filhos na porta da Igreja e voltam para os buscar horas depois. Parece não haver nenhuma preocupação com a evangelização da criança ou do adolescente. Muitos nem ao menos conhecem a/o catequista do filho, nunca o procuram para saber o que acontece nos encontros de catequese. A preocupação maior é com a cerimónia do dia em que o catequizando receberá o sacramento.

Muitos pais quando procuram o catequista não é para saber o que o filho está aprender e como se comporta, mas para saber como será a roupa que irá vestir no dia celebração, o fotógrafo…

Na tentativa de envolver as famílias na tarefa da catequese, em muitas paróquias, há o costume de celebrar “missas da catequese”. No entanto, quase sempre quem participa são apenas os catequistas e os catequizandos.

O que fazer diante desta realidade? As “Reuniões de Pais” poderá ser um caminho a seguir… mas também podem surgir outras iniciativas: “Encontro das Famílias”, “Missão Catequética”…

É urgente que as famílias voltem a ser “escolas de santidade”. Para isso, a catequese deve ser um canal da graça de Deus, principalmente para aquelas famílias que se encontram desestruturadas. É indispensável fazer ecoar nesses lares a palavra de Deus. Logo, não podemos ficar parados de braços cruzados à espera que venham até nós, somos nós que temos que ir ao encontro dessas famílias, cumprindo desta forma o mandato missionário de Jesus Cristo: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações…” (Mt 28,19). Portanto, a nossa maior alegria deve ser testemunhar o amor de Deus.

            Esquema:

1 – FAMÍLIA: “IGREJA DOMÉSTICA” E “PRIMEIRA ESCOLA DA FÉ”

2 – CATEQUESE: DESCOBRIR CRISTO E CRESCER NO AMOR 

3 – EUCARISTIA: MISTÉRIO DE AMOR E COMUNHÃO QUE ILUMINA A VIDA 


1 – FAMÍLIA: “IGREJA DOMÉSTICA” E “PRIMEIRA ESCOLA DA FÉ” 

Ao criar a humanidade do homem e da mulher à sua imagem (…) Deus inscreveu nela a vocação ao amor e à comunhão e, portanto, a capacidade e a responsabilidade correspondentes» (FC 11).

A família, instituída por Deus é  comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. CIC 2205). A família é uma realidade presente na vida humana desde o início da humanidade[4]. Os primeiros capítulos do livro de Génesis mostram-nos isto[5]. Deus, quis confiar particularmente à família, no matrimónio, a missão de guardar, revelar e comunicar o Seu Amor pela humanidade e o Amor de Cristo pela Igreja (cf. FC 17).

A família, a que a criança está ligada por laços afectivos especiais é um meio importante para o seu desenvolvimento integral. O amor a Deus é uma graça que precisa de ser comunicada aos filhos, para que eles façam também esta experiência. Mas, o amor não se mostra com palavras ou com ideias, o amor é mostrado com e pela vida. Educar para o amor só se faz amando concretamente.

A própria estrutura familiar, baseada no amor e na estabilidade, é de grande importância para essa formação integral. A família, onde o amor deve ser uma realidade constante e crescente, é o melhor lugar para educar, mostrando praticamente o valor, a necessidade, a importância, a beleza do amor e de amar. Quem fala de amor fala de Deus (cf 1Jo 4,16). Na medida que há um real testemunho de amor na família e pela família, há igualmente uma positiva e verdadeira experiência de Deus. Este amor não é apenas uma ideia ou uma imposição dos pais, mas torna-se uma necessidade e um companheiro de caminhada.

Nesta educação integral há que saber conciliar o amor com a firmeza. Só assim, é que as nossas crianças irão crescendo com os valores que as dignificam e lhes garantem um futuro feliz. A família continua a ser, em qualquer das suas expressões, o melhor espaço e a mais oportuna realidade para formar e orientar os filhos rumo a uma vida verdadeiramente humana, cristã e feliz. Ninguém como o ser humano, na sua infância, é carente de segurança, de carinho e de protecção que só a família pode dar.

«Aquele que ama o seu filho, repreende-o com frequência; aquele que dá ensinamentos a seu filho será louvado» (Ecl 30,1-2). «E vós, pais, não irriteis os vossos filhos; Pelo contrário, educai-os com disciplina e advertência inspiradas pelo Senhor» (Ef. 6, 4).

A Família é o melhor espaço para formar e orientar os filhos rumo a uma vida verdadeiramente humana, cristã e feliz[6]. A criança capta, recorda e imita as experiências de fé de seus pais… Atitudes e símbolos, são de suma importância para o seu despertar para Deus.

É bom termos presente que:

– O despertar religioso acontece quando a criança começa a identificar-se com as atitudes religiosas dos pais… (a criança imita…). É no colo da mãe e do pai que a criança se começa a abrir para Deus, a pronunciar o nome de Jesus, a aprender as primeiras orações, a tomar consciência de um Deus que é Pai e a ama.

– Quanto maior for a nossa formação humana e cristã, melhores condições teremos para transmitir às nossas crianças e adolescentes o interesse pela descoberta das riquezas da fé, o gosto de, juntos saborearmos as maravilhas do amor de Deus para connosco, e de Lhe correspondermos com o nosso amor filial. (Família que reza unida permanece unida)[7].

Que lugar ocupa  a catequese no dia a dia da criança?

Qual o acompanhamento familiar, no campo educativo da fé de seus filhos?

Sempre que é enfraquecida, por parte dos pais, a vivência e o testemunho da dimensão espiritual, surgem as dificuldades de enfrentar as muitas e desordenadas solicitações, com que diariamente somos bombardeados pela cultura de morte que actualmente nos rodeia.

É urgente ajudar a família a recuperar a beleza original da sua vocação matrimonial, querida por Deus. Pois, o  papel dos pais na educação é tão importante que é quase impossível substituí-los. O direito e o dever da educação são primordiais e inalienáveis para os pais (cf. CIC 2221).

A família será cristã se desde o seu início for uma família que une fé e vida, e que, portanto, catequiza os seus membros pelo testemunho. A catequese será eficaz e atingirá os seus mais importantes objectivos se acontecer de maneira viva e firme na vida familiar.

A família é e sempre será a “primeira escola de fé”, porque nela o testemunho dos pais fala mais que qualquer outra palavra, qualquer gesto ou imagem. Não há melhor forma de catequizar do que as atitudes tomadas pelos pais e que são percebidas, entendidas e assimiladas com interesse, curiosidade e amor pelos filhos – (as palavras convencem, os exemplos arrastam).

A família é a primeira escola catequética porque a família é também a primeira Igreja de cada pessoa. A família, com o seu testemunho vivo e diário de fé, é lugar teológico e testemunha de uma evangelização que vai formando pessoas novas para um mundo novo que exige posturas novas, visando sempre à concretização do Reino de Deus entre nós, através de nós e para nós.

Cristo disse: «Eu vim para que  tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). Esta Sua Vida em plenitude, Ele continua a oferecê-la a todos quantos acreditarem n’Ele e se dispuserem a aceitar as orientações da Igreja, continuadora da sua obra de salvação ao longo da história. Por isso… a própria vida da família torna-se itinerário de fé e, em certo modo, iniciação cristã e seguimento dos seguidores de Cristo (FC 39).

Daí a importância da família na transmissão da fé:

– pelo testemunho – os filhos aprendem a amar vendo como os membros da família se amam;

– pela palavra – o que sai da boca dos pais vai-se gravando na mente e no coração dos filhos;

– pela espiritualidade – o desejo de ter Deus como fundamento da vida em família.

Assim a catequese acredita na família como ambiente propício para o desenvolvimento da fé cristã.

CONCLUINDO:

Concluindo esta parte, sobre a família como “Igreja doméstica” e “primeira escola da fé”, podemos dizer que a família é uma realidade presente na vida humana desde o início da humanidade. Portanto, em todas as suas expressões, a família é um espaço para formar e orientar os filhos para uma vida verdadeiramente humana, cristã e feliz.

A família cristã, porque constituída por baptizados, é uma “Igreja doméstica” chamada a ser um foco de fé viva e de testemunho na comunidade paroquial. A casa familiar é um espaço privilegiado para congregar e unir as pessoas, para a vivência da fé e escuta da Palavra de Deus, para a oração conjugal e familiar, para a acção de graças, de abertura aos outros e de partilha de vida.

A catequese, como processo de educação da fé, deve encontrar uma atitude concreta na família. Na verdade a família deve ser a primeira “Escola da fé”. Desde o ventre materno, a criança já deve ser formada para a fé, deve sentir-se amada pelos pais e por Deus. Toda a identidade da criança deve ser constituída pela família. Por isso, a família é a primeira escola da fé. Numa família cristã, desde o princípio, os seus membros sentem a unidade entre fé e vida, sentem a presença do amor de Deus, sentem-se como uma “Igreja doméstica”.

A família é a “primeira escola da fé ” e a “Igreja doméstica” quando os filhos experimentam a generosidade e o sentido cristão da vida através das palavras e do exemplo dos pais e dos avós, quando aprendem gradualmente a seguir o seu exemplo, e se orientam para os valores cristãos e para a vida sacramental descobrindo, vivendo e experimentando o sentido da paternidade de Deus, o amor a Jesus Cristo, o amor pela Eucaristia, a oração e o amor ao próximo. Diz S. João Crisóstomo: “Fazei da vossa casa uma Igreja”.


2 – CATEQUESE: DESCOBRIR CRISTO E CRESCER NO AMOR

A catequese é uma acção da Igreja, é a Igreja no seu todo que faz a catequese, cumprindo a sua missão de ser continuadora da missão de Jesus Cristo: levar a Boa Nova a todos os povos. A Igreja, animada pelo Espírito Santo, conserva no seu coração, anuncia, celebra, vive e transmite o Evangelho através da catequese (cf. DV 8).

2.1 – O que não é a Catequese

– A Catequese não é uma aula de religião ou de moral, nem se dirige somente à capacidade de aprender e de saber bonitas coisas acerca de Deus, acerca dos sete sacramentos, dos dez mandamentos, da Igreja, da vida eterna.

– A Catequese não é um à parte, uma hora para a educação religiosa ou cívica, como se fizesse algum sentido preocupar-se por não faltar a um encontro de catequese e faltar, sem qualquer justificação, à celebração da Eucaristia e aos compromissos com a vida da comunidade.

– A Catequese não é ocupar os tempos livres, ensinar regras de boa educação ou esgotar o tempo a decorar as fórmulas das orações comuns dos cristãos.

– Não é só ajudar a adquirir alguns conhecimentos

– Não é só ajudar a cumprir umas práticas

– Não é só ajudar a aprender umas orações

– Não é só ajudar a receber uns sacramentos

2.2 – O que é a Catequese

            – É sobretudo provocar um encontro: um encontro com Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, enviado pelo Pai para a nossa salvação. Um encontro com uma Pessoa e não uma teoria

– É aderir livremente e com alegria à Pessoa de Jesus Cristo e à Sua Mensagem.

– É crescer na Comunhão com Deus e com o próximo.

– Seguir Jesus Cristo e viver como Ele viveu (CT, 5 e DGC, 80).

– A Catequese é uma «educação da fé» e da «fé» em todas as suas dimensões. Frequentar a Catequese, é bem mais do que «ir à doutrina». O mero conhecimento da «doutrina» sem a celebração e sem a sua aplicação à vida, faz da fé uma bela teoria.

2.3 – Finalidade da Catequese 

– Despertar o sentido religioso da vida

– Fazer crescer na fé

– Amadurecer humana e cristãmente

– Levar à celebração da fé em comunidade

Assim, o objectivo da catequese é levar cada catequizando não só a um contacto, mas a uma comunhão e intimidade com Jesus Cristo (cf. CT 5). Pela sua própria natureza, “a comunhão com Jesus Cristo impulsiona o discípulo a unir-se a tudo aquilo a que o mesmo Jesus Cristo se sentiu profundamente unido: a Deus seu Pai, que o enviara ao mundo; ao Espírito Santo, que lhe dava força para a missão; à Igreja, Seu corpo, pela qual Se entregou; e a toda a humanidade, e a seus irmãos, cuja sorte quis partilhar” (DGC 81).

 2.4 – Dimensões da vida cristã  

            A catequese deve abarcar as várias dimensões da vida cristã que levem o catequizando a fazer uma progressiva opção por Jesus Cristo. Assim a catequese deve levar a:

– Descobrir em profundidade a mensagem de Jesus Cristo

– Adoptar o seu estilo de vida

– Celebrar a sua presença nos sacramentos

– Reunir-se em seu nome e em comunidade

– Participar na construção do reino de Deus.

2.5 – Meta da Catequese

A meta da catequese é a seguinte: “desenvolver a fé inicial do baptismo até à maturidade, cuja medida é Jesus Cristo”.

Para atingir este objectivo serão suficientes os encontros semanais de catequese?

Então, o que falta para que as nossas crianças e jovens possam ser devidamente formadas/os humana e cristãmente?

«Os pais são os primeiros responsáveis pela educação de seus filhos. Dão testemunho desta responsabilidade em primeiro lugar pela criação de um lar no qual a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado são a regra» (CIC 2223).

A família é e será sempre a primeira escola de fé, porque nela o testemunho dos pais fala mais que qualquer outra palavra, gesto ou imagem. Não há melhor forma de catequizar do que as atitudes tomadas pelos pais e que são percebidas, entendidas e assimiladas com interesse pelos filhos, sempre que sejam expressão de amor e inter-ajuda.

A educação para a fé por parte dos pais deve começar desde a mais tenra infância. Ocorre já quando os membros da família se ajudam a crescer na fé pelo testemunho de uma vida cristã de acordo com o Evangelho. A catequese familiar precede, acompanha e enriquece as outras formas de ensinamento da fé. Os pais têm a missão de ensinar os filhos a rezar e a descobrir a sua vocação de filhos de Deus[8].

A paróquia é a comunidade eucarística e o coração da liturgia das famílias cristãs; é o lugar privilegiado da catequese dos filhos e dos pais» (CIC 2226).

Concluindo:

A catequese é responsável por educar nas diversas dimensões da fé: a fé professada[9]; a fé celebrada[10]; a fé vivida[11]; e a fé rezada[12], tudo inserido numa comunidade[13] e com sentido missionário[14]. Para conseguir este objectivo, a catequese deve seguir o modo como Jesus formava os seus discípulos, realizando estas tarefas fundamentais: conhecer as dimensões do Reino, ensinar a orar, transmitir atitudes evangélicas e iniciar à missão.

A Catequese é uma acção da Igreja, através da qual transmite a fé que ela mesma recebeu, guarda e transmite de geração em geração.


3 – EUCARISTIA: MISTÉRIO DE AMOR E COMUNHÃO QUE ILUMINA A VIDA

Vivemos tempos algo conturbados. A maioria das pessoas vive uma vida desordenada, sempre a correr. Sobretudo, os casais mais novos lançam-se numa rotina que os vai desgastando. De manhã cedo, tratar dos filhos, levá-los ao colégio ou à escola, seguir para o emprego; ao fim do dia, regresso do trabalho; casa, comida…

Se perguntarmos a algum destes casais qual é o lugar de Deus na família, uns dizem que se esquecem, outros, que lhes falta o tempo. Mas faltará mesmo, ou será uma questão de saber estabelecer prioridades?

É urgente que Jesus Cristo seja Alguém vivo e operante nas nossas vidas. Fomos criados por Deus para que, usando o dom da liberdade, caminhemos para Ele em comunhão íntima de amor.

A participação na vida divina advém-nos pela participação na Eucaristia. Sob as espécies do pão e do vinho, Cristo continua presente, dando-nos a Sua Vida. É no encontro com o Cristo Ressuscitado que está a nossa salvação.

Vou à missa porque Cristo me chama, através da Igreja, ou entrei na rotina? Na Eucaristia faço comunhão com os outros? A Eucaristia ilumina toda a minha vida dando sentido a tudo, até no sofrimento? Não podemos esquecer que foi a Eucaristia que alimentou e deu sentido à vida dos santos (ex.: Papa João Paulo II). Seria bom que o mesmo sucedesse connosco.

A Eucaristia traz, em si mesma, o privilégio da presença sacramental e real de Jesus Cristo, garantida por ele mesmo quando disse aos Apóstolos, apresentando-lhes na última ceia pascal o pão e o vinho: “Isto é meu corpo tomai e comei. Isto é meu sangue, tomai e bebei”, acrescentando em seguida: “Todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em minha memória” (cf. Lc 22,14-20; 1Cor, 11,17-33).

A Jesus Cristo, presente na Eucaristia, a Igreja confessa com firme fé, e neste Sacramento ela o recebe com alegria, celebra e adora com veneração. Este Sacramento é por excelência o da Redenção (cf. 1Cor 11,26), no qual e pelo qual a Igreja anuncia, sem cessar, a morte de Jesus Cristo e proclama a sua ressurreição, até que Ele venha na sua glória[15], como Senhor e Dominador invencível, Sacerdote eterno e Rei do universo, ao lado do Pai omnipotente, em união indizível com o Espírito Santo, elo do amor entre o Filho de Deus e o Pai (cf. Is 10,33; 51,22; Missal Romano).

“A Eucaristia, escreve o Papa João Paulo II, está desde sempre no centro da vida da Igreja. Por meio dela, Cristo torna presente, no transcorrer do tempo, o seu mistério de morte e de ressurreição. Nela, ele em pessoa é recebido como “pão vivo descido do céu” (Jo 6,51) e com ele nos é dado o penhor da vida eterna, graças ao qual se antegoza o eterno banquete da Jerusalém celeste”[16].

A catequese, apesar de ser limitada na sua missão, deve procurar dar aos fiéis os elementos fundamentais da teologia e da espiritualidade do Sacramento da Eucaristia, incentivando-os e motivando-os a aprofundarem, ao longo da vida, o estudo e a vivência deste sublime Sacramento. O Concílio Vaticano II afirma que “na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa, o Pão vivo que dá aos homens a Vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo”. E continua: ela “apresenta-se como fonte e simultaneamente vértice de toda a evangelização, porque o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, n’Ele com o Pai e com o Espírito Santo” (Presbyterorum ordinis, 5). Por sua vez, para o crente, na sua caminhada cristã, a Eucaristia consolida a incorporação em Cristo, operada no Baptismo pelo dom do Espírito (cf. 1Cor 12, 13.27).

A Igreja não cessa de chamar a atenção sobre a centralidade da Eucaristia para a vida cristã e não apenas em cada celebração eucarística e nas grandes solenidades eucarísticas, em cada ano. Ela promove o culto da adoração ao Santíssimo Sacramento, Congressos Eucarísticos diocesanos, nacionais e internacionais, sessões de estudo, elabora documentos… O Papa João Paulo II mostrou-se extremamente zeloso em relação à compreensão e vivência do sublime mistério da Eucaristia. É um tema recorrente em todo o longo tempo do seu magistério pontifício. Escreveu a Encíclica “Ecclesia de Eucharistia” (17/04/2003), proclamou o Ano Eucarístico Internacional, de Outubro 2004 a Outubro 2005, e escolheu como tema do Sínodo de 2005: “A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”.

Acima de tudo, há que nos interessarmos por conhecer  e aprofundar sempre mais a maravilhosa beleza deste mistério! Visto ser difícil amar aquilo que não se conhece…

O sacramento da Eucaristia é o centro e o coração de toda a liturgia da Igreja de Jesus Cristo. Pois é nela que se cumpre – dia após dia, em toda a terra – a missão confiada aos Apóstolos: «Fazei isto em Memória de Mim”. Por isso a nossa celebração está fundada no memorial da última Ceia de Jesus, tal como S. Paulo relata no seu testemunho (cf. 1Cor 11,23-25).

O que podemos fazer para que a catequese paroquial seja mais eficaz e contribua para uma melhor formação e uma melhor vivência da fé por parte das crianças e jovens da nossa comunidade?

Antes de mais, pela nossa convicção de que, sem a Eucaristia não é possível vivermos a nossa vida cristã, assumida por nós, no dia do nosso baptismo. Daí a necessidade do esforço por parte dos pais em acompanhar os seus filhos à Eucaristia Dominical, bem como rezar em família e ajudar os filhos a criar hábitos de oração e interesse por aprofundar ao longo de cada semana as catequeses do seu próprio catecismo.

CONCLUSÃO: DESCOBRIR A CENTRALIDADE DE JESUS CRISTO

Toda a formação catequética deve ser iluminada pelo mistério soteriológico de Cristo. A Igreja e, por conseguinte, a catequese, nascem da revelação do mistério pascal de Cristo. O processo catequético não é apenas um processo para ter fé em Cristo, mas a fé de Cristo. Neste sentido, não basta apenas lançarmos o nosso olhar sobre um aspecto ou uma dimensão da vida de Jesus Cristo. É necessário experimentá-lo existencialmente, através do Reino, da Igreja, do Outro e da vida, na família, na catequese e na Igreja.

Constatamos que ainda existe um conceito de catequese estritamente infantil, doutrinário e ocasional. Temos dificuldades em entender a catequese como um processo contínuo e dinâmico de aprofundamento da fé, que deve estar presente nas diversas etapas da vida dos cristãos. A nossa iniciação à vida cristã é ainda muito pobre e deficitária. Somos iniciados frequentemente em doutrinações, em ritos, numa liturgia sacramentalista, mas não crescemos rumo à maturidade em Cristo (cf. Ef 4,13). Temos muitas dificuldades em articular fé e vida, vida da e em Igreja e compromisso com a transformação do mundo.

Por isso a catequese conduz à maturidade da fé não apenas os catequizandos, mas também a própria comunidade (família, catequistas, paróquia…).

Temos que superar uma compreensão da catequese como simples transmissão de uma doutrina, de um conteúdo de fé a ser decorado porque a catequese é antes de tudo um encontro pessoal com Jesus Cristo, de onde brota uma atitude de seguimento. Em Cristo, o cristão é convidado a modelar a sua vida, a pautar as suas acções e a redimensionar as suas atitudes.

A catequese tem como objectivo último iniciar o cristão no seguimento de Jesus Cristo e na vida da comunidade, rompendo assim com um conceito de uma fé individualista e pouco eclesial. É na comunidade concreta dos fiéis baptizados que o cristão faz a experiência radical do encontro com o Senhor.

Mas para que tudo isso não seja apenas sonho ou uma utopia, é necessário e urgente termos uma catequese aberta à iniciação cristã. A simples “sacramentalização” não é suficiente para termos cristãos “adultos na fé”, comprometidos na vida da comunidade eclesial, comprometidos com a transformação do mundo. Trata-se de uma longa caminhada, de um processo vital de introdução contínua dos cristãos, seja qual for a sua idade, nos diversos aspectos essenciais da fé.

Ao longo dos últimos anos, mas especialmente depois do Concílio Vaticano II, desenvolveu-se na Igreja uma consciência crescente para a necessidade de se renovar a mentalidade catequética e de se recuperar a experiência da catequese. Prova disto são as constantes referências a este tema nos documentos da Igreja: Christus Dominus, Directório Geral para a Catequese, Catechesi Tradendae, Novos Catecismos, etc.

Mas não basta termos os documentos, se não colocarmos os mesmos em prática. Para tanto, especialmente o grupo dos catequistas, os presbíteros e os bispos deverão fomentar e articular o processo catequético, tornando-o realidade vital no seio das comunidades.

                                                                                                 P. António Abel Rodrigues Canavarro


[1] Bibliografia: Encíclica Ecclesia de Eucharistia (João Paulo II); Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (Bento XVI); Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine (João Paulo II); Catecismo da Igreja Católica; Directório Geral para a Catequese; Exortação apostólica pós-sinodal Catechesi Tradendae (João Paulo II); A Família, esperança da Igreja e do mundo (Conferência Episcopal Portuguesa); O Domingo numa sociedade em mudança(Conferência Episcopal Portuguesa); Para que acreditem e tenham vida. Orientações para a catequese actual (Conferência Episcopal Portuguesa).
[2] Não vamos entrar no debate conceptual para afirmar se estamos em uma “pós” ou “hiper-modernidade”. O que importa saber é que estamos em um período histórico certamente diferenciado em relação àquele que denominávamos “modernidade”.
[3] As catequeses resumiam-se a uma exposição meramente doutrinal e monologal do mistério de Cristo e da Igreja. As preparações de noivos resumiam-se a palestras para “esclarecer” o conceito de sacramento, e explicações sobre como se “celebrava” o sacramento, etc. Tudo isso de forma espontânea e mais como informação.
[4] A família cristã nasce do sacramento do matrimónio e, por isso mesmo, é uma aliança de amor e de fidelidade.
[5] O que de facto está em crise é o matrimónio. O casamento religioso, especialmente, é pouco procurado e a sua realização não passa, muitas vezes, de um acto apenas social.
[6] A família é a primeira escola das virtudes sociais. É ai que os filhos fazem uma primeira experiência de uma sã sociedade humana.
[7] A família é assim sujeito e agente de Evangelização. De modo geral, a Igreja encontrou esta chave de interpretação e prática pastoral assumindo a família como Igreja Doméstica. Atribui a ela a qualificação de Igreja. Ela é na Paróquia e na Diocese um nível de Igreja. Esta afirmação da LG (Igreja Doméstica) não só caiu profundamente em muitas famílias cristãs, mas na reflexão teológica sobre a família ocupa o primeiro plano, constituindo o pilar principal… (Dicionário de Catequética – ‘família cristã’).
[8] Em relação à participação dos pais na catequese dos filhos e à participação da catequese na evangelização das famílias, o Directório Nacional de Catequese diz com muita clareza: “Não se pode imaginar uma catequese com jovens, adolescentes e crianças sem um trabalho específico com os pais. ‘A catequese familiar é de certo modo insubstituível, antes de tudo, pelo ambiente positivo e acolhedor, persuasivo pelo exemplo dos adultos e pela primeira explícita sensibilização e prática da fé’ (DGC, 178).
[9] Conhecimento da fé: a catequese deve conduzir à apreensão de toda a verdade do desígnio salvífico de Cristo. A compreensão da Sagrada Escritura, do Credo e outros artigos da fé da Igreja.
[10] A educação litúrgica: a comunhão com Jesus Cristo leva à celebração da Sua presença nos sacramentos, pelo que a catequese “além de favorecer o conhecimentos do significado da liturgia e dos sacramentos, deve educar os discípulos de Jesus Cristo ‘para a oração, para a gratidão, para a penitência, para as preces confiantes, para o sentido comunitário, para a percepção justa do significado dos símbolos…’, uma vez que tudo é necessário, para que exista uma verdadeira vida litúrgica”(DGC 85).
[11] A formação moral: a conversão a Jesus Cristo tem como consequência que o discípulo siga o caminho do Mestre. A catequese deve favorecer uma educação que propicie ao catequizando atitudes próprias do cristão, que lhe transmita a vida em Cristo, concretizada em atitudes e opções morais.
[12] Ensinar a rezar: A comunhão com Jesus Cristo leva a que os seus discípulos assumam o carácter orante e contemplativo do Mestre, conseguindo, deste modo, que a vida cristã seja vivida em profundidade. Aprender de Jesus a sua atitude orante “é rezar com os mesmos sentimentos com os quais Ele se dirigia ao Pai: a adoração, o louvor, o agradecimento, a confiança filial, a súplica e a contemplação da Sua glória”(DGC 85).
[13] Educar para a vida comunitária: A educação para a vida comunitária implica que o catequizando tenha condições para se ir envolvendo de uma forma progressiva na vida da comunidade, assumindo responsabilidades e comprometendo-se com esta. Para isso, a catequese deve fomentar atitudes próprias (Cf DGC 86).
[14] A iniciação para a missão: Só se adquiriu a maturidade da fé quando se tem capacidade e necessidade de testemunhar essa mesma fé, nas diversas circunstâncias da vida. A catequese, ao educar para o sentido missionário, capacita os discípulos para a sua missão na sociedade, na vida profissional, cultural e social.
[15] Cf. Missal Romano e, também, João Paulo II Ecclesia de Eucharistia, 1.
[16] JOÃO PAULO II, Mane nobiscum Domine, 3.
Fonte Internet: http://www.saocosme.com/

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